23 de julho de 2012

voz visual, voz táctil

depois que comecei a lavar eu mesma minhas meias, nunca mais perdi um par.

este mês, faz dez anos que pela primeira vez rasguei o verbo - não como no ditado popular. rasguei o verbo por ter criado a primeira barreira àquilo que me era imposto: peguei o verbo do outro, rasguei e fiz um pequeno muro com um meu verbo. demorou um pouco para que o próximo viesse, mas depois de um tempo foi um verbo atrás do outro, unidos pela massa de algo que faz das pessoas capazes de decidir, e comecei a edificar-me.

precisava de atenção. mais do que aquela que recebia e, visto de hoje, era obrigada a ter. atenção genuína, interesse real, saber que o que dizia não era ridículo, ou mesmo não dizer nada e ainda sim ser uma criança que recebesse o carinho necessário ao berço. visto de hoje, o cercadinho fez perfeitamente sua função e barrou demais, em ambas as direções talvez. com o início da adolescência, não havia uma necessidade de gritar e me rebelar. isso pressupunha que eu me voltasse inclusive contra o meu próprio discurso anterior, e... que discurso?

durante o fim da adolescência, o cabelo foi voz, entre outras coisas. já tinha em mim uma bruta, sólida arquitetura, à qual faltava acabamento, uma fachada simpática, então testei as cores para as paredes de cada cômodo, e isso ficou claro ao mundo. eu berrava, e o verbo, em tudo em que punha mão, ficava imagem.

nunca mais perdi um par de meia depois que comecei a lavá-las eu mesma.

depois de tantas experiências, projetos - principalmente fracassados, tentativas, provações, temperos, cores, palpites, é muito bom ter consciência da própria voz, e ver isso tomar forma ao seu redor. é quase gratificante ver algo tão forte construído sem ter ajuda alguma nas fundações.
considero que, de fato, nasci há dez anos. e se no princípio era o verbo, nada mais justo. só que o que realmente é importante nisso é o nascimento de uma voz e sua manifestação das mais inusitadas maneiras, e com isso o nascimento do ser naquilo que era só organismo. é tomar as rédeas de si, mesmo que sem segurança a princípio, e então atirar bem longe o que parecia ser asfalto para que enfim nasça o que deve brotar deste solo. 

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